segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Puerpério... (conheci-te!)

É preciso, se não urgente, desmistificar o pós-parto, o tão conhecido puerpério. Podia ter feito uma pesquisa mais elaborada e dizer que, segundo alguns estudos, o puerpério pode durar determinado tempo, isto, aquilo e o outro mas prefiro falar por experiência própria. Afinal, quem carrega as nossas dores para além de nós mesmos? Ninguém! Dizem-nos que também já passaram por aquilo, que sabem bem o que é e, pessoalmente, acredito que existam situações piores - existem sempre pessoas piores que nós - mas essa comparação não ameniza, não acalma. As nossas dores somos nós próprios que as carregamos!

Durante a gravidez do Tomé, confesso que andava às escuras. Um mundo novo, novas descobertas, os receios e ansiedades, expetativas, o medo do desconhecido. Admito que pensava que não seria tão difícil. Como admito que era impensável amar alguém como o amo.

As aulas e apoio na área de saúde materna são excelentes e nisso tive sorte em conhecer a enfermeira Solange - grande profissional e muito mas muito humana - e ainda hoje me recordo tão bem das suas palavras: "acreditem que o que custa mais no meio disto tudo não é o parto mas sim o pós-parto". Estava certa, Solange! Foi mesmo!
Arrisco-me a dizer que o parto do Tomé foi algo que em nada me custou (bendita epidural!).. portanto, o que podia querer eu?
Queria que o que viesse a seguir não tivesse custado tanto.
Bolas, eu estava às escuras, em tudo!
Não sabia como amamentar um bebé, não sabia reconhecer, de imediato, os diferentes choros e quais seriam as suas queixas, não sabia nada!
Será agora a parte em que dizem que o tempo traz experiência, que os erros nos ensinam, que ser mãe é mesmo isso. Sim, eu aceito. Mas na altura, os comentários não apoiaram.
Foi no pós-parto e depois de algumas coisas terem corrido menos bem que me dediquei a pesquisar. Foi depois da amamentação de três meses ter falhado que aprendi mais sobre o assunto. Foi depois de ter passado noites sem dormir e a ouvir o Tomé chorar que percebi se eram cólicas, calor, fome. Sim, foi o tempo que me trouxe aprendizagens e hoje, sinto-me mais capaz!
Mas bolas.. O puerpério é lixado! Confesso que a única pessoa que eu queria naquela altura era a minha mãe. Queria abraçá-la e não a queria largar por nada deste mundo. Naquela altura não há namorado, irmã, irmão, tia, prima, sogra, amiga que te valham! São todos uns queridos e damos uns sorrisos na maternidade nas horas de visita mas o que vai cá dentro é "gente, não se demorem aqui. Vão mas é chamar a minha mãe.". Mas isto, sou só eu a falar. Experiência própria, mais uma vez. E contra mim falo porque tenho sempre a certeza que a minha mãe cura tudo e só ainda não me foi diagnosticada Síndrome de Peter Pan porque porque.. Mas, já que falo por mim, não posso deixar de dizer:

Não romantizem uma fase que custa, não banalizem as dores de uma recém mãe, não digam que "daqui a um ano estás pronta para outro" quando uma mulher se custa, inclusive, a sentar depois do seu corpo ter sido totalmente mexido; não digam a uma mãe "o teu leite é fraco" quando a única coisa que o bebé conhece é o corpo da mãe e, normalidade das normalidades, vai querer mamar por tudo e por nada; não digam a uma mãe "coitadinho do bebé, experimenta dar mama só mais uma vez. Tens de ganhar calo na mama" quando a própria sabe, efetivamente, que já fez tudo o que podia para amamentar e não consegue mais porque tem conhecimento que dar de mamar não deve doer; não tirem os bebés do colo da mãe quando o cheiro materno é o único que eles querem; desenhem uma maternidade a cores mas não se esqueçam do lado que dói, não se esqueçam que também o lápis cinzento faz parte dessa pintura. 
Ajudem, compreendam mas não insistam, não condenem, não peçam justificações. Dêem espaço para conhecermos os bebés e para eles nos conhecerem, para assentarmos os pés na terra, para darmos tempo ao nosso corpo, para entendermos todos os processos que acontecem connosco. Terão tempo para estar com os pequenos, depois. Deixem os pais e os bebés aprenderem a serem um só, aprenderem a ser uma equipa. Acreditem que há pessoas que nos fazem sentir como se tivéssemos servido apenas como parideiras e isso.. Não ajuda! Acreditem que quando chegam a nossas casa e nos oferecem palpites que em nada acrescentam, os famosos bitaites, as típicas frases feitas - dá vontade de vos levar, gentilmente, para a porta por onde entraram. Vão ler isto e pensar que sou exagerada ou, talvez, uma besta, mas acredito que, ainda que em silêncio, muitas vão concordar com isso. E é disso que precisamos. Que digam as coisas, que não se calem, que parem de usar só o lápis cor de rosa, que se acabem os fundamentalismos e extremismos e comparações que mais parecem campos de batalha.
Acreditem que uma mãe, no puerpério, precisa de tempo e espaço. 
Se nem o sol brilha sempre, porque é que nós, mães, seríamos diferentes?!
Somos sempre as melhores para os nossos filhos mas..também precisamos de ser cuidadas.


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